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 A ciência pura, essa que descobre os fenómenos e as leis do universo, acho-a respeitável e, por isso, admiro todos os devotados cientistas que no-la trazem ao conhecimento do mundo. Mas para a outra, a aplicada, em que, neste caso, o cinema se insere, tenho eu uma resposta plausível? (…) Com efeito, creio profundamente nesta coisa a que chamamos cinema, que enquanto imagem projetada no ecrã é imaterial, é como que o fantasma de qualquer realidade, real ou imaginada, imagem que não pertence à realidade concreta da ciência aplicada. O que desta fica é o ecrã em si, as máquinas em si, enfim, as cousas materiais, mas não o substrato imaterial que destas cousas se abstrai e delas não faz parte.
Manoel de Oliveira, “Memória de um Crítico de Cinema”, Revista Camões 12-13, junho 2001, p.114.
Estivemos com Manoel de Oliveira, aqui na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a 8 de fevereiro de 2012. A nossa Aula Magna estava repleta de pessoas fascinadas pelo cinema, pelo ecrã, pelo regard à la caméra, pela essencialidade do hors champ, pelo universo histórico do cinema mudo, pelo quebrar das imagens e dos estereótipos, pela função dos gestos e dos rituais, pela universalidade das personagens e das ideias.
Entre nós e as criações cinematográficas de Manoel de Oliveira surgiu assim um estranho caso de fascinação. O mesmo fascínio que a boneca da Loja das Tentações exerce sobre Carlitos e Teresinha, em Aniki Bóbó, o mesmo fascínio que o Douro exerce sobre o olhar de Ema, em Vale Abraão, que o rosto de Angélica exerce sobre a vida de Isaac, em O Estranho Caso de Angélica.
Um fascínio e um encontro contínuo com o instante, a memória, a vida e a imaginação. Foi um momento único, um cruzar de olhares e de gestos entre Manoel de Oliveira e todos os que acreditam que o “Cinema não tendo tempo tem todos os tempos fora e dentro do tempo e do espaço.”
Foi um momento especial de partilha entre o cineasta e os olhares de quem percorreu as sequências, os planos e os enquadramentos das suas criações cinematográficas. Foi um instante único, o templo de um plano, de uma sequência ou de um plano-sequência entre Manoel de Oliveira e o Douro. Entre Manoel de Oliveira e os olhares dos que admiram as suas imagens, a essencialidade dos seus planos e da sua montagem, a força simbólica das suas personagens e dos seus gestos.
Estivemos lá porque acreditamos que a criação é o espírito impulsionador de todas as coisas, porque é o espírito criativo que faz funcionar as máquinas e os espaços. Aprendemos com ele que “não há outra forma de arte que se aproxime mais da vida do que o cinema”. Aprendemos com ele que “o cinema não foi, nem sequer começou. O cinema é. É, porque já era, e já era porque tem em si o espírito das cousas, e assim, como sempre foi, sempre será.”
Os cineastas não morrem e, por isso, Manoel de Oliveira não nos deixou: a ciência aplicada permite a conservação dos materiais intrínsecos ao cinema e o espírito humano preserva a imaterialidade da linguagem cinematográfica! Enquanto cientistas e professores, temos essa responsabilidade: fazer com que a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira nunca seja esquecida!