Homenagem Póstuma a Carlos Cardoso

A Escola de Ciências Humanas e Sociais prestou a 15 de março, uma homenagem póstuma ao docente e artista pedagogo Carlos Cardoso, com o descerramento de uma placa com o seu nome numa área específica da Escola de Ciências Humanas e Sociais (ECHS), onde funcionam os cursos de Teatro e Artes Performativas, Educação Básica e Animação Sociocultural, e nos quais Carlos Cardoso se destacou como docente. 

O momento solene contou com a participação do reitor da UTAD, António Fontainhas Fernandes e dos responsáveis pelos diferentes órgãos da ECHS: Presidente da Escola, Presidente do Conselho Científico, Presidente do Conselho Pedagógico, diretores de departamento e diretores dos cursos.

Joaquim Escola, docente e colega de Carlos Cardoso, lembrou e enfatizou a dimensão humana, científica, académica, pedagógica e profissional do Professor Carlos Cardoso, através do texto que a seguir se transcreve:

Impõe-se que inicie esta minha brevíssima intervenção com o agradecimento ao Senhor Presidente da Escola de Ciências Humanas e Sociais, ao Professor Manuel Luís Tibério, a exigente mas gratificante missão que me foi confiada de proferir algumas palavras no quadro da homenagem que prestamos ao colega e amigo Carlos Cardoso.

Encontramo-nos reunidos numa cerimónia evocativa da memória deste amigo que nos deixou recentemente e de forma repentina. Martin Heidegger (2000) na obra  Serenidade, onde homenageava um homem das artes, o músico Konradin Kreutzer, escreveu: “Se quisermos homenagear um desses homens predestinados à criação artística, impõe-se, em primeiro lugar, honrar condignamente a sua obra.” 

É isso que eu tentarei aqui fazer. Creio que nos reunimos aqui exatamente para celebrar a obra, o legado do Carlos Cardoso. 

Que apresentação fazer deste amigo e da sua obra? Talvez, o mais indicado, seja recorrer às sua próprias palavras, às que nos deixou na sua apresentação no currículo Degóis e que passo a citar:  

Carlos José Vieira Mendes Cardoso (Carlos Lamego) espera ser recordado como artista pedagogo que atuou na área do teatro, da expressão dramática e do desenvolvimento pessoal e que teve dificuldade em lidar com o cientismo.

Falemos um pouco da sua formação académica: licenciou-se em Teatro no Conservatório de Teatro e Cinema de Lisboa. Obteve o grau de mestre em Didática da Expressão Dramática e do Teatro pela Universidade de Montreal, no Canadá e obteve o grau de doutor em Estudos Teatrais na Universidade de Paris III. Foi Professor Associado em Estudos Teatrais, pela UTAD, condição que manteve até ao fim. Esta passagem por tantas e prestigiadas instituições de ensino superior internacionais, deu-lhe uma visão muito alargada do mundo académico, do mundo em geral e contribuiu desta feita para uma visão cosmopolita, de cidadão do mundo que soube sempre partilhar com todos nós.

A primeira dimensão a que aludo no seu currículo é à formação como ator e como encenador. Nessa qualidade esteve envolvido em peças como o Paraíso de Miguel Torga, O Marinheiro de Fernando Pessoa, as peças A Lição e As Cadeiras, do dramaturgo ligado ao Teatro do Absurdo, Eugène Ionesco, a Casa de Bernarda Alba, do poeta e dramaturgo espanhol Frederico Garcia Lorca, entre outras.  Foi dirigido como ator por Mário Cortez, Carlos Cabral, Valentim Lemos.  Contracenou com atores conhecidos da nossa praça, como Nuno Melo e Carla Lupi, também já desaparecidos, Pompeu José, Vitor Norte, Glória de Sousa, Lena Leitão, entre tantos outros.

Foi diretor artístico da Jangada Teatro. 

O gosto pelo Teatro leva-o a criar o TUTRA (Teatro Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro), envolvendo os alunos da UTAD e dinamizando a academia, ao mesmo tempo que se preparava para a criação de projetos de formação na área do Teatro e da Educação Artística.

É absolutamente impossível falar da área da Educação Artística na UTAD, sem se falar do Carlos Cardoso. Esta área tem inscrita, de forma incontornável, a sua marca. Como Professor, como pedagogo, emprestou-lhe um cunho muito pessoal, e nessa medida, arrisco dizer que foi um verdadeiro embaixador, levando sempre consigo a UTAD, a instituição à qual esteve sempre ligado e onde desenvolveu empenhada e competentemente a sua atividade académica.

Chega ao CIFOP no ano de 1986, para lecionar as disciplinas de Expressão Dramática e Didática da Expressão Dramática, na formação professores e Educadores, nos cursos de bacharelato de Educadores de Infância e de Professores Primários.  1986 constitui um marco para a formação de Professores na UTAD, é o primeiro ano em que se inicia a formação dos bacharéis nestas duas áreas e, ao mesmo tempo, coincide o fim das Escolas do Magistério Primário que antecederam a UTAD/CIFOP como instituição de formação de educadores e professores nesta região. Nenhum diplomado nestes cursos de bacharelato, nas licenciaturas que se lhes seguiram a partir de 1997, ou na licenciatura em Educação Básica da UTAD, depois de 2007, passaram sem levar consigo a sua influência e a inspiração do seu magistério.

É ao Carlos Cardoso que se deve a criação do Curso de Teatro e Artes Performativas. E a criação deste curso, ao invés do trabalho a que todos nós já estivemos ligados em algum momento, ao fazer propostas de criação de ciclo de estudos, é radicalmente diferente. Apesar do Carlos de ter declarado, como tivemos oportunidade de ouvir na apresentação do seu currículo no portal Degóis que “tinha dificuldades com o cientismo”, eu diria antes, que o Carlos Cardoso tinha dificuldade com um certo academismo que grassava à época nas instituições de ensino superior. Importa lembrar que a criação do curso tem como alicerce, como fundamento a sua tese de doutoramento, realizada em Paris III. A tese de doutoramento intitulada Pour une formation pluraliste en expression dramatique – Création d’un programme mixte de théâtre/education, em França, na Université de la Sorbonne Nouvelle é a proposta fundamentada de criação do Curso de Teatro e Artes Performativas da UTAD. Arrisco dizer que não haverá nenhuma proposta de criação de um curso na UTAD que tivesse este pressuposto, e nessa medida que pudesse reunir a qualidade e o rigor que uma tese de doutoramento exige.

É a ele que se deve também a criação do Mestrado em Ensino do Teatro em 2011, descontinuado em 2015, pelo desaparecimento desta área no Regulamento de habilitação para a docência, (2014).

No que concerne à gestão académica também assumiu responsabilidades. Entre 1999 e 2009 dirigiu o Departamento de Artes e Ofícios. Dirigiu o curso de Teatro e Artes Performativas na sua criação e ao longo de vários anos.  Foi ainda diretor da Licenciatura em Professores do Ensino Básico 1º Ciclo.

Foi também MESTRE, no sentido mais original que esta noção tem. A sua condição de Professor e investigador levou-o a assumir a responsabilidade de orientar trabalhos académicos de doutoramento e mestrado, numa fase importante, mas incipiente, no que respeita ao desenvolvimento destas áreas (Expressão Dramática e da Didática do Teatro e da Expressão dramática) no país. Há um conjunto de Colegas de instituições de Ensino Superior (Universidade do Minho, dos Institutos Politécnicos do Porto e de Santarém) que foram por si orientados e, enquanto discípulos, transportaram a sua influência para as instituições onde também formavam professores e educadores. 

Como dizia na apresentação do seu currículo Degóis o Carlos Cardoso definiu-se como “artista pedagogo que atuou na área do teatro, da expressão dramática e do desenvolvimento pessoal”. O Teatro, a Didática do Teatro e da Expressão Dramática foram sempre o veículo através do qual assumiu de forma tão nobre a sua condição de artista pedagogo.  

Se já falei do Carlos Cardoso como ator, encenador, professor, investigador, responsável pela gestão académica, (como diretor de ciclos de estudo), é agora como pessoa, com o peso, a densidade ética que o conceito de pessoa envolve, que importa falar deste amigo. 

Um dos traços mais marcantes da sua personalidade era o modo como se relacionava com os outros. Era uma pessoa de trato fácil, com uma alegria contagiante. A bonomia, a boa disposição, a afabilidade com que se relacionava com os outros, enquanto cruzava os corredores do edifício do CIFOP, no bar ou no espaço exterior do edifício, eram marca da sua personalidade. Detinha-se sempre para cumprimentar a todos aqueles com quem se cruzava, quer fossem colegas, funcionários ou alunos. Cumprimentava os alunos tratando-os sempre pelo nome ou pelo apelido, tentava sempre saber um pouco da sua história, de onde vinham, quais os seus projetos de vida, quais as suas preocupações sem, em nenhum momento, ser intrusivo. Respeitava-os, deixava-lhes uma palavra de incentivo, mas também era muitíssimo firme nos princípios e nos valores, sobretudo quando sentia que estes resvalavam ou que os alunos transgrediam o estabelecido. 

 A formação inicial no Curso de Direito, antes de enveredar pela formação académica no Teatro e Expressão Dramática, (Licenciatura em Teatro no Conservatório de Teatro e Cinema de Lisboa) deixou-lhe algumas marcas fundamentais no caráter, que se evidenciavam na forma veemente com que assumia as suas posições na atuação quotidiana e pública. A sua ação, em todos os palcos da vida que pisou, foram pautados por uma prática onde a legalidade, a retidão, a busca pela verdade, pela justiça imperavam. E nisto o Carlos era absolutamente intransigente.

Aqui, na UTAD, também travou algumas batalhas e fê-lo sempre com denodo, com frontalidade, com uma coragem que a todos nós, seus colegas e amigos, inspirava. Não se escondia por trás de muros e esquinas oportunas para atirar pedras. Assumia sempre, em terreno aberto, com lealdade e sem medo as suas posições. Ficou muitas vezes, diria mesmo, demasiadas vezes, sozinho. Mas porque era animado pela convicção inabalável de que não podia assumir outra posição que não aquela que no momento lhe parecia a mais adequada e que a sua consciência lhe ditava, prosseguia na sua defesa intransigentemente. Este isolamento, em algumas ocasiões quiçá, a própria solidão, não o intimidavam, muito pelo contrário. Ecoava em si, de forma mais audível, a coerência em relação aos princípios e aos valores que defendia. A verticalidade era, na sua personalidade uma marca incontestável e incontornável.

Preferiu sempre a denúncia de situações irregulares, da mentira, ao conformismo e ao silêncio. Como o filósofo e o dramaturgo francês Gabriel Marcel, na obra Les Hommes contre l’humain, o Carlos considerava que “o silêncio era cumplicidade” e, portanto, deixou que a sua consciência e o seu rigor ético falassem sempre mais alto, e por isso mesmo, nunca, em momento algum, se silenciou ou se deixou silenciar. 

Chegado aqui só me resta dizer OBRIGADO, com o sentido original que esta palavra tem no nosso idioma, e com o sentido com que Tomás de Aquino utilizava o vocábulo no seu Tratado da Gratidão.

OBRIGADO, da palavra latina obligatus, particípio do verbo latino obligare, que significa ligar, amarrar.  Ao dizer-te OBRIGADO Carlos, quero, naturalmente, ir muito para além do reconhecimento pelo teu legado, da gratidão por tudo o que fizeste por nós, mas mostrar o vínculo que me compromete perante ti, em salvaguardar, como membro desta academia, aquilo que era essencial na área da Educação Artística, e os valores porque sempre pugnaste e que merecem o meu respeito, a minha gratidão e o de todos os colegas e amigos que aqui se encontram. 

Esta placa que a seguir se vai descerrar e que passa a designar a sala de Drama não será apenas mais uma placa, que pretende escapar ou resistir à erosão do tempo. Mais importante é a memória e a gratidão pelo teu legado.  Eu sei que a gratidão é hoje um valor raro e muitíssimo maltratado, e tu, mais do que ninguém sofreu com isso. Mas é, também por isso mesmo que eu sinto a exigência e o dever de falar dela. Este OBRIGADO, que o Senhor Presidente da ECHS, o Professor Manuel Luís Tibério, me concedeu a honra e o privilégio, naturalmente imerecido, de poder dizer publicamente, testemunha o vínculo, o compromisso em honrar esse mesmo legado. OBRIGADO Carlos Cardoso. Foi um gosto ter sido teu amigo, foi um privilégio ter podido conviver e aprender contigo como colega, foi uma honra ter-te recebido como Diretor do Departamento de Educação e Psicologia. OBRIGADO Carlos. Até sempre.

Deixo a todos os presentes o poema Ator, de Herberto Hélder, que sei que o Carlos Cardoso apreciava muito. 

O ACTOR
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O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas – 

o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça

Herberto Helder