A Covid-19 e a resistência a antibióticos

Os efeitos que a Covid-19 poderá causar no combate à resistência a antibióticos foram estudados pelas investigadoras Patrícia Poeta e Carla Miranda.

Por um lado, a pandemia poderá ter efeitos benéficos na diminuição da resistência a antibióticos devido à lavagem frequente das mãos, ao uso de máscara que protege de microrganismos patogénicos e ao facto do isolamento profilático diminuir a disseminação de doenças em geral sendo que, um menor número de doentes levará a uma menor utilização de antibióticos. Contudo, por outro lado, verifica-se a diminuição na aposta nos programas de vigilância de resistência a antibióticos e o seu uso em Unidades de Cuidados Intensivos. “O que hoje é fundamental administrar no combate da infeção poderá tornar a sociedade vulnerável num futuro próximo, face a uma nova ameaça microbiana”, salienta Patrícia Poeta.

O uso acrescido, e por vezes indevido, de antibióticos durante esta pandemia, como reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é um fator de risco para um aumento sem precedentes da taxa de resistência a antibióticos.

Considerando a administração global de antibióticos no tratamento de complicações e infeções bacterianas secundárias posteriores à infeção pelo vírus SARS-CoV-2 durante esta atual emergência, que ainda não terminou e já ultrapassa os 5 milhões de mortes, poderá prever-se um cenário de calamidade a nível de saúde pública. Este facto apresenta efeitos potencialmente graves a curto e médio prazo no combate a infeções bacterianas na saúde humana-animal-ambiente, contribuindo, desta forma, para uma nova emergência de saúde pública que a humanidade terá que enfrentar”, refere Patrícia Poeta, sublinhando a necessidade de se investir no conceito de “Uma Só Saúde”.

Uma vez que muitos destes antibióticos já são classificados como último recurso terapêutico de infeções existentes na medicina humana e animal, a investigadora Carla Miranda defende que “a aplicação de antibióticos na medicina veterinária também implica que os animais (tal como humanos) possam funcionar como reservatórios e disseminação destas resistências para o meio ambiente, por exemplo através fezes e para o Humano”. “O contato próximo estabelecido entre o Homem e os animais, sobretudo de companhia, favorece a transmissão mútua ou bilateral entre o ser humano e os animais. Por isso, a utilização de antibióticos em medicina humana e veterinária traz efeitos nocivos para ambos”, alerta.

 

Texto: Patrícia Posse