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Amanhã, 4 de junho, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) promove o primeiro curso de verão dedicado aos “Serviços de Ecossistema em Áreas de Montanha”.  Será na serra do Alvão que empresários, estudantes e docentes vão poder descobrir uma nova perspetiva da gestão florestal. Com a duração de oito horas, este curso conta ainda com a participação de formadores da Universidade Federal de São Carlos (Brasil), no âmbito do acordo de cooperação internacional.

O percurso iniciar-se-á numa floresta de interface entre a cidade e a serra, junto a Vila Marim, onde os participantes vão observar o pinheiro-bravo, a espécie resinosa mais abundante em Portugal, agregando a esta floresta as condicionantes de gestão de combustíveis. Depois, já na freguesia de Vila Marim, observar-se-ão os agro-sistemas de vale de agricultura familiar, corredores ripícolas e as florestas plantadas em áreas outrora agrícolas.

De seguida, iniciar-se-á a subida até à aldeia de Lamas de Olo, onde vão poder observar manchas de carvalho, visitar uma parcela com cultivo tradicional de linho em Agarez, floresta de montanha e áreas de matos utilizadas para pastoreio. O percurso terá o seu término junto ao rio Olo, nos lameiros com o sistema tradicional de regos para distribuição harmoniosa de água e biodiversidade endémica associada.

Em cada paragem do percurso, os participantes terão de preencher fichas de campo para, posteriormente, apurarem índices de serviços de ecossistema e sustentabilidade ambiental associados aos diferentes ecossistemas observados (já em contexto de sala).

Esta formação da UTAD propõe, aos participantes, a testagem e aplicação de metodologias de articulação entre conhecimentos disciplinares científicos e conhecimentos locais para garantir a manutenção das agroecossistemas tradicionais no Alvão.

 

Serviços de Ecossistema em Áreas de Montanha

Os serviços de ecossistema são os benefícios que o ser humano retira dos ecossistemas, estando estes diretamente relacionados com a estrutura de vegetação, processos ecológicos, diversidade e abundâncias.

As áreas agrícolas, florestais e de pastoreio, além da produção de serviços de aprovisionamento (como madeira, cortiça, sementes, leite, carne, alimentos), contribuem para regular os ciclos de carbono, da água, manutenção da biodiversidade e serviços culturais (herança cultural, recreio e ecoturismo, estéticos e religiosos). Por exemplo, contribuem para reduzir a poluição do ar, para melhorar a fertilidade dos solos e para purificar a água, capturando e armazenando carbono, reduzindo a probabilidade de cheias e influenciando a precipitação a nível local e regional. A degradação dos ecossistemas e a perda de biodiversidade afetam estes serviços, que “apesar da sua importância para as pessoas, muitos foram tomados como garantidos no passado, sendo vistos como livres e infinitos” (relatório Ecosystem Services and Biodiversity).

As ações humanas estão a diminuir a capacidade dos ecossistemas de montanha responderem à crescente procura pelos seus serviços, em especial o sequestro de carbono, alimento e água. A título de exemplo, a água que corre nas torneiras da cidade de Vila Real é captada na Campeã e em Lamas de Olo, estando a sua qualidade/quantidade diretamente dependente da ocupação florestal daquelas zonas. Por isso, este curso de verão da UTAD quer demostrar a importância de salvaguardar, na origem, a conservação dos recursos naturais e das funções ecológicas. A manutenção dos agroecossistemas de montanha e a sua adaptação aos novos tempos podem ser a chave para haver mais serviços de aprovisionamento, de regulação e culturais, ou seja, mais bem-estar humano. É importante que haja a capacidade de criar novos esquemas de pagamento destes serviços a quem os produza.

Florestas sem gestão profissional (representando um elevado risco de incêndio), terras agrícolas abandonadas, aldeias serranas despovoavas, práticas sociais e memórias seculares a extinguirem-se compõem um cenário que urge contrariar. Por isso, a UTAD continuará a promover ofertas educativas como a Engenharia Florestal e Biotecnologia e cursos de curta duração abordando a problemática territorial.

 

Texto: Patrícia Posse